Edit Template

‘Homem com H’: O tipo de cinebiografia que salva o gênero

No cenário hollywoodiano, as cinebiografias passam por um período de desgaste, mas, no cinema brasileiro, são sempre bem-vindas se seguirem o elemento mais difícil do gênero: serem verdadeiras. E aqui não quer dizer que cada diálogo da pessoa em questão seja visto em tela exatamente como ocorreu na vida real, e sim que a essência daquela personalidade, como artista e pessoa esteja ali. E é partindo desse princípio que conhecemos Ney Matogrosso como nunca antes em ‘Homem com H’, a partir de um filme que cumpre exatamente o que se propõe.

O longa explora a trajetória de Ney Matogrosso (Jesuíta Barbosa) desde sua infância na cidade de Bela Vista, em Mato Grosso do Sul, marcada por uma difícil relação com seu pai, que era militar, e pela violência homofóbica paterna. A produção acompanha o momento em que ele sai de casa, descobre a potência de sua voz, sua jornada com o grupo Secos e Molhados, carreira solo e relacionamentos amorosos.

Voz determinada

Durante os primeiros anos de destaque de Ney em sua juventude, o tempo na aeronáutica, os primeiros grupos de música e relacionamento amoroso, uma constante em sua voz permanece: a determinação. O contraste da a voz fina e corpo esguio com as falas potentes são um ótimo recuso do roteiro para conhecermos nosso personagem.

Desde as primeiras cenas, Jesuíta Barbosa instiga o público a querer se aproximar do personagem, para então, nas primeiras apresentações musicais, mostrar toda sua potência como Ney. Sim, um ator eficiente é essencial numa cinebiografia e Jesuíta dá uma completa aula de trejeitos do cantor com um trabalho marcante.

A caracterização e direção de fotografia também são muito bem pensadas para o surgimento de Ney em tela acontecer. A fidelidade nas roupas e penteados combinadas com os olhares marcantes do cantor e closes na sua movimentação corporal dão a experiência completa de não apenas assistir um show de Ney, mas assistir naquela época.

Assim, a estrutura visual do protagonista é tão bem pensada que, por vezes, outras são deixadas a desejar, como a de sua mãe Beita que não passa por tantas mudanças com o tempo. Apesar dessa questão visual, é importante a escolha do roteiro em manter a família constante no filme como um traço formador de sua persona nos palcos.

Panorama histórico

Uma constante na obra é a libertação do cantor de opressões e figuras de autoridade além da quebra de preconceitos. No contexto histórico, é sempre destacado a coragem de Ney se reafirmar enquanto artista para um público que ainda não estava preparado ou não sabia o que queria ver.

Nesse aspecto, a única lacuna que poderia ter sido melhor explorada é realmente a ditadura militar. Por alto, é citado no filme que os militares estão cientes de Ney, que censuraram algumas músicas, mas, nada tão contundente ou esperado sobre um homem com aparência andrógena que fazia performances sensuais.

Essa falta de profundidade na questão é o preço a ser pago pelo filme se propor a juntar vários aspectos da vida de Ney para formar o artista Ney Matogrosso. Assim, quem é realmente aprofundado e complexo é o personagem em si, aquele que realmente importa.

Sem pudores

Acredito que aceitar realizar uma cinebiografia sobre si nem sempre seja a escolha mais confortável – o que explica muitas feitas de forma superficial em Hollywood e no Brasil. Afinal, não são todos aspectos de nossas vidas que gostaríamos de reviver ou, pior, expor para todo país em alta resolução. É dessa questão que vem a coragem do filme e de Ney como pessoa: se mostrar sem pudores.

Ele afirma que tudo visto em tela é real, portanto, como não poderia deixar de ser, todos os pudores são deixados de lado pelo diretor Esmir Filho. Em diversas cenas, o diretor joga pistas sobre a sexualidade de Ney com os takes na praia, os corpos masculinos se movimentando no exército e começa a explorar a visão do personagem sobre eles.

Além de deixar claro a liberdade sexual de Ney, o filme dá enfoque para dois de seus amores com Cazuza (Jullio Andrade) e Marco de Maria (Bruno Montaleone), seu companheiro durante 13 anos. Ambos são retratados com muita seriedade e rendem os diálogos mais significativos sobre Ney. Nesse ponto, com sua carreira bem desenvolvida, as questões amorosas tomam conta daquilo que a fama não oferece.

Um grande elenco

Além das escolhas de elenco bem realizadas para acompanharem Jesuíta, o longa trabalha muito bem o Ney como figura principal, pois, ao colocar uma alguém popular como Cazuza em tela, poderia deixar de lado o protagonista, o que não ocorre. Ali, vemos, no máximo, uma relação de equidade no protagonismo, na relevância de Cazuza não como cantor, mas como homem para Ney.

São tantos aspectos da vida de Ney Matogrosso que o filme oferece que parece ser impossível tudo condensar num longa, mas a montagem consegue alçar isso a partir de várias escolhas inteligentes: as manchetes de jornais, as transições musicais e cenas de apoio de Ney na floresta, mostrando seu íntimo.

Mesmo com tantas informações é preciso deixar claro que o filme não se propõe a ser um ponto final, ele consegue dar parâmetro sobre várias questões, mas não encerra todas elas. O longa continua depois que os créditos sobem e podemos ir atrás de mais, sendo assim uma metalinguagem de Ney: aquele que instiga, que ousa e que deixa sempre uma questão sobre o que ainda virá.

Compartilhe:

4 Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Edit Template

Siga nosso perfil no Instagram