Criado nos anos 50 por Nelson Rodrigues, o termo “complexo de vira-lata” representa o sentimento de inferioridade do Brasil em relação a outros países. Sentimento esse criado pelos próprios brasileiros, algo interno que reflete como percebemos o espelho exterior apontado para nós.
Tal complexo é justificável, mas, quando o assunto é cinema brasileiro é perceptível as raízes pautadas muito mais no preconceito e ignorância que na própria verossimilhança em como essas obras são recebidas mundo afora.
As máximas “filme nacional não presta” e “só tem palavrão e gente pelada” refletem quais gêneros de filmes são distribuídos de forma abundante país afora. Assim, reforçam ainda mais a inferioridade assumida pelos brasileiros em relação ao restante do mundo.
- O fenômeno de Walter Salles

Com uma temática relevante e ampla distribuição, ‘Ainda Estou Aqui’ muda esse cenário definitivamente em 2025. Sim, desde o Festival de Veneza em setembro de 2024 a obra dirigida por Walter Salles chamava atenção mundial. Porém, é somente a indicação ao Oscar – considerado a premiação máxima do cinema, que temos o reconhecimento dos brasileiros.
Mas afinal, essa valorização ter vindo de Hollywood, de outro país não reforça justamente o complexo? Infelizmente sim, mas isso leva ao fenômeno do brasileiro reconhecer sua obra a partir do interesse de vê-la nos cinemas.
Dessa forma, somente por meio do reconhecimento de nossa grandiosidade é que o brasileiro se volta a seus filmes e a valorização de outras produções que também chegaram próximos da indicação ao Oscar.
Esse fenômeno na sétima arte acompanha a crescente do país mundo afora após o desempenho positivo do país nas Olimpíadas de Paris 2024, não somente ao ficar na 20ª posição, mas também ao figurar momentos de destaque mundial na competição.
- Quais os caminhos?

Apesar de não gostar desse sentimento derrotista que a categoria de melhor atriz colocou sobre os brasileiros ao não premiar Fernanda Torres como nós esperávamos, existe um bom mérito nisso. Esse sentimento de descontentamento questiona a finitude do reconhecimento internacional e alimenta um patriotismo exacerbado que eu não acreditava os brasileiros possuírem.
De forma muito esperançosa, para minar o complexo de vira-lata é preciso reforçar tais questionamentos e incentivar a valorização artística no país. Isso pode ocorrer para além do reconhecimento específico de uma obra, se estendendo também a valorização de profissionais do cinema, dos festivais e de quem trabalha com a sétima arte no país, para que então esse reconhecimento internacional entre de vez nas nossas fronteiras.